sexta-feira, 30 de maio de 2008

Domesticados e Selvagens (parte III)

Os dois vetores da relação

Voltemos às reuniões com os brancos e às relações dos Xikrin com a Vale do Rio Doce. Considerando o que discutimos acima, a manifestação da qualidade àkrê que se desvela em momentos de confronto político – expressa na modificação corporal, no uso das pinturas e armas, na fala “dura”, no tom ameaçador – é muito mais que uma simples performance ou um simples teatro, compreendidos como “mentira”, ou representação falseada ou fingida do que se passa. Ao contrário, sugiro que tais eventos, em que os Xikrin apresentam-se em seu aspecto àkrê, são momentos em que as coisas aparecem como elas devem ser, do ponto de vista Xikrin. Isto é, onde se ressaltam mais claramente as posições "nós / outros", "mebêngôkre / kuben" ou "índios / brancos". Essa relação se constitui, de certa maneira, pelo sentido da ação: um é o agente ou sujeito da ação; o outro, seu objeto.

Evidentemente, as reuniões e os eventos políticos com os brancos são momentos em que a relação dos Xikrin com eles se desloca para um determinado plano em que devem ser descontadas ou desconsideradas as sutilezas e multiplicidades da interação ordinária. É certo que nem todos os brancos são iguais – há brancos antropólogos, missionários, agentes de Funai, funcionários do Posto, da Vale do Rio Doce, madeireiros, enfim, de todos os tipos. Igualmente, nem todos os Mebêngôkre o são da mesma forma (podendo ser mais ou menos parentes, mais ou menos amigos, ligados por afinidade ou por relações putativas e de compadrio). Além disso, do ponto de vista Xikrin, é sempre possível, dadas certas condições, transformar um tipo de gente em outra. O casamento e a convivência prolongada é o instrumento básico de transformar kuben em mebêngôkre. Porém, nos contextos de confronto político, algo se passa de maneira a colocar em segundo plano o fato de que, no dia a dia, os Xikrin estabelecem relações verdadeiramente amistosas e cordiais – vale dizer, “domésticas” – com muitos brancos.


Foto Cesar Gordon

O estado uabô, assumido pelos Xikrin em sua relação com os brancos após o processo de pacificação empreendido pelo Estado brasileiro resultou, da parte dos Xikrin, na cessação de uma disposição geral para a guerra. Isso implicava, entre outras coisas, tratar o branco como amigo (ombikwá, que é a mesma palavra para parente). Num certo sentido, é exatamente isto: tratava-se de considerar o branco como um parente. Com o fim das guerras e a incorporação à “comunhão nacional”, não só os brancos passaram a ser considerados amigos ou parentes, mas também os outros índios de outras etnias. Eis uma frase dita por um chefe Xikrin a esse respeito:
A gente não deve brigar [fazer guerra, matar] com outros índios, pois somos todos parentes. Antigamente nossos avós não sabiam que estavam matando parente, mas hoje a gente sabe. E também não devemos matar kuben, pois somos todos gente.

Ressalvando o caráter oficial e diplomático do trecho, ele expressa todavia uma expressão concreta e verdadeira da avaliação que os Xikrin fazem de sua história recente. Com a pacificação e a integração ao Estado, houve um alargamento, politicamente estratégico e socialmente necessário, do universo dos parentes e de uma concepção do humano mebêngôkre a círculos muito amplos, tais como os índios brasileiros, todos os brasileiros, e todos os kuben. Por isso, em sua análise das mudanças culturais kayapó, Terence Turner é levado a dizer que na “nova visão de mundo kayapó, os brasileiros foram admitidos enquanto seres plenamente humanos e sociais” (“De cosmologia a história: resistência adaptação e consciência social entre os Kayapó”, in: Amazônia: etnologia e história indígena, 1993, p.58). Ele descreveu corretamente uma face do fenômeno. Porém, há uma outra face, complementar à primeira, que parece poder se expressar na seguinte pergunta: até onde é possível continuar sendo Mebêngôkre, pensados como uma gente diferente de outras gentes (do tipo de gente representado pelos brancos, por exemplo), se todos forem indiscriminadamente e igualmente gente?

Porém, de fato, foi assim – pacificamente – que, desde um momento recente da história, os Xikrin (e os outros Kayapó-Mebêngôkre) aceitaram estabelecer um novo padrão de relacionamento com os brancos. E assim eles o vêm fazendo. De sorte que, evidentemente, o estado pacífico não é, por sua vez, uma outra performance ou dissimulação, a encobrir a verdadeira natureza selvagem dos índios. Em certo sentido até, é bem verdade que os Xikrin, hoje, consideram-se mais uabô e menos àkrê do que foram um dia. Mas é porque, justamente, esse é um processo infinito e de mão dupla, que lhes ocorre desde o princípio dos tempos. Sua história e sua existência pode ser vista, a partir do momento em que puderam tornar se àkrê, como um contínuo deixar de ser àkrê, não deixando nunca de o ser; e um contínuo deixar de ser uabô, nunca deixando de o ser.

Foto: Cesar Gordon

Não custa recordar um dos modos recorrentes com que os Xikrin referem-se aos tempos idos (amrêbê): seus antepassados “comiam cru, pois não possuíam o fogo” (como hoje faz o jaguar de quem subtraíram o fogo), “comiam pau podre, pois não possuíam roças de batata”, “dormiam como porcos do mato, porque não tinham redes”, “matavam por qualquer coisa, à toa (kubin kajgó)”, e por aí vai. Nos dias atuais, a utilização cotidiana das vestimentas dos brancos, suas roupas ou sua “pele” (kuben kà, palavra mebêngôkre para roupa, significa literalmente ‘pele/couro/invólucro’ de kuben), aparece como sinal desse estado pacífico, e dessa relação de amizade – desse certo grau de aparentamento com os brancos. No entanto, apesar disso, tal aparentamento parece encontrar limites claros e é mesmo negado em certas circunstâncias. De um ponto de vista geral, os Xikrin manifestam repúdio em transformar-se em branco, a menos que essa transformação seja ritual. Eles não manifestam qualquer desejo de transformar os brancos em afins verdadeiros e parentes através do casamento e da cohabitação. Ao contrário, afirmam que o casamento com brancos é moralmente ruim (punure, mejx kêt).

Portanto, o aparentamento amplo que resultou da pacificação precisa ser de algum modo negado, se os Xikrin – como parece ser o caso – acham-se dispostos a continuar ‘sendo/estando Xikrin’, ou seja, para prosseguir com o objetivo de produzir pessoas mebêngôkre, diferenciando-se dos brancos e do kuben em geral. Logo, mais uma vez, percebe-se a importância de manter sempre um quociente àkrê na relação. Com efeito, em algum momento, é preciso recolocar o branco em sua posição de não-parente, em sua posição de estrangeiro. E o modo de fazer isso é manifestando-se contra ele por meio da ação predatória. Ou seja, é preciso colocar-se na posição de sujeito, de um modo àkrê, para que ressalte no branco a diferença, a alteridade.

Resta dizer que esse duplo modo de relação (uabô/akrê) não é absolutamente novo aos Xikrin. Ao longo da sua história, como vimos, seus antepassados, ainda que considerados retrospectivamente pelos próprios Xikrin como eminentemente àkrê (ou mais àkrê do que são hoje), sempre foram capazes de estabelecer relações amistosas e de troca pacífica com estrangeiros indígenas ou brancos. Assim ocorreu, por exemplo, em suas relações com os índios Karajá e com seringueiros e castanheiros, no século XX. Porém, essas parcerias eram intrinsecamente instáveis e podiam ser desfeitas a qualquer momento, desembocando em guerra. Era muito comum que o padrão de trocas pacíficas fosse interrompido por um súbito ato predatório cometido pelos Xikrin.

Assim, é possível entender por que relações pacíficas, mais ou menos duradouras, não são garantia contra ação predatória ou contra a irrupção da agressividade e dos valores àkrê, que ocorrem seja na guerra, seja na paz. Embora, de maneira geral, os Xikrin digam-se atualmente uabô (ou mais uabô do que já foram outrora), eles continuam tornando-se àkrê em certas relações, mesmo que isso não se manifeste necessariamente em combates armados ou violência real, mas sim, predominantemente, em situações políticas, como são as reuniões com a Vale do Rio Doce. Tornar-se àkrê implica recolocar os brancos na posição de estranho, de externo, de outro; e isso se faz por meio da ação predatória.

Hoje, no contexto das reuniões, os Xikrin e os Kayapó valem-se primordialmente de uma predação simbólica: daí toda a mise en scène coletiva dos “guerreiros”, que envolve a pintura corporal, os adornos plumários, as armas tradicionais e a fala dura.

Saber se as ameaças de violência xikrin podem ou não se concretizar, parece-me uma questão secundária do ponto de vista a análise antropológica. O mesmo não se pode dizer no que diz respeito às relações institucionais com a Vale do Rio Doce e o com o Estado brasileiro. A questão é delicada. Embora não seja esta a intenção dos Xikrin, a violência pode, com efeito, concretizar-se, nunca se sabe. Eventualmente, a predação simbólica e política pode se converter em predação real, pois os limites entre elas são tênues – não apenas para os índios, aliás, como para qualquer ser humano. Até hoje, as ameaças de ação concreta dos Xikrin limitaram-se a invasões à Serra de Carajás e ao bloqueio de estradas da companhia. Muito mais raramente tomam funcionários da Vale como reféns e podem até saquear o comércio do núcleo de Carajás.

Esse tipo de atitude é incomum, mas ocasionalmente ocorre, contra a Vale e contra outros brancos da vizinhança. Apesar de, no geral, relacionarem-se de maneira perfeitamente pacífica nas cidades, pode acontecer de grupos de jovens Xikrin resolverem cometer algum abuso sobre pequenos estabelecimentos comerciais da região, consumindo produtos em grandes quantidades e deixando a dívida “pendurada”, que o comerciante, constrangido, é obrigado a aceitar. A prática repudiada pelos mais velhos e pelas lideranças, mas a dívida às vezes não é paga. O dono do estabelecimento, então, vai bater às portas da FUNAI e das associações xikrin, para reclamar e cobrar a dívida. Muitas vezes, esses são potencialmente os momentos de contrapredação dos brancos, pois vários comerciantes bem podem aparecer com dívidas inexistentes, notas e faturas falsificadas e superfaturadas, que as associações acabam absorvendo, renovando o ciclo, já que os Xikrin, no fim das contas, irão cobrar da Vale do Rio Doce, convocando novas reuniões.

Tais acontecimentos (em que a predação torna-se real, por assim dizer) são raros, como disse – e os Xikrin querem manter, e sabem que precisam manter, suas relações de amizade com os brancos. Todavia, independentemente de sua agressividade manifestar-se ou não em atos concretos de guerra, os Xikrin precisam continuar tornando-se àkrê pois essa é a forma da relação com o kuben. Em última instância, eles precisam continuar virando àkrê se desejam permanecer um tipo de gente específico, diferente dos brancos. E a Vale do Rio Doce (mas não só ela), pelo menos em determinados momentos de sua relação política com os índios, ocupa a posição do kuben a ser simbolicamente predado.


Foto: acervo público via Google©

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