domingo, 16 de dezembro de 2007

Apontamentos iniciais sobre o livro "Travesti" de Don Kulick

Terminei de ler Travesti: sex, gender and culture among Brazilian transgendered prostitutes, de Don Kulick (The University of Chicago Press, 1998). Dez anos depois da publicação original, o livro será enfim editado em português (a publicação pela Editora da Fiocruz está prevista para o ano que vem com tradução minha). É uma boa etnografia sobre as travestis de Salvador. Como observação geral, posso dizer que o livro deve incomodar alguns representantes do movimentos gay e GBLTS, justamente pelo fato de descrever a realidade de um segmento homossexual específico - as travestis - de uma maneira franca, honesta e direta. Honrando a boa tradição antropológica (que talvez seja até hoje apenas uma virtualidade divisada pelos primeiros etnógrafos), Kulick mostra-se comprometido não com esta ou aquela agenda política da vez, mas fundamentalmente e em primeiro lugar com a verdade interna (embora parcial, fragmentária e muitas vezes incoerente) à compreensão do mundo e às experiências vividas das travestis de Salvador. Por isso, seu texto não faz concessões, senão residualmente, e adquire uma força enunciativa e um vigor etnográfico verdadeiramente louváveis em tempos de pensamento politicamente correto.




A etnografia de Kulick demonstra como são artificiais as tentativas de arrolar as práticas travestis dentro do quadro dos chamados “movimentos sociais”. As travestis de Salvador não são, espontaneamente, militantes. Muito pelo contrário. Expressam muitas vezes uma consciência acachapante dos limites concretos de sua atuação e da sua vida no mundo, com resignação e dignidade. Nem por isso estão livres de erros: erros de avaliação, erros de conduta (cometem crimes, mentem, exploram e ocasionalmente vilipendiam umas às outras), incertezas e evasivas intelectuais e psicológicas. E é preciso um enorme esforço (seja em âmbito discursivo intelectual, seja em âmbito da ação e da mobilização) por parte dos líderes e artífices intelectuais do movimento gay para converter a vida das travestis no quadro mais estreito da ação política orientada. Lembrando ainda, e sempre, que lutar por direitos não é a mesma coisa que lutar por poder.
Um dos pontos altos do livro é a crítica de Kulick a um tipo de versão pós-moderna, e muito em moda na antropologia, cuja tendência é rejeitar qualquer classificação binária, seja em favor de sistemas ternários, seja em favor de sistemas “inclassificáveis”, não objetiváveis, eternamente fluídos e abertos, como que a encarnar uma diferença virtual não efetuada.
Ancorado firmemente na etnografia (e portanto naquilo que as travestis de Salvador pensam, dizem e fazem), e com uma argumentação muitas vezes perspicaz, Kulick nos apresenta uma hipótese forte, a saber: que o sistema de gênero brasileiro é binário e permite apenas duas posições: homem x não-homem. Sem entrar no mérito de uma discussão sobre o valor descritivo e analítico da noção de gênero, e utilizando a lingüística como analogia, poderíamos dizer que, no sistema de gênero brasileiro, o traço diacrítico não marcado é “homem”; e o traço marcado é “não-homem”. E essa marcação é determinada inequivocamente por uma prática sexual: ser penetrado. Quem “dá”, como diz Kulick citando as travestis de Salvador, é “não-homem”. No lado de quem "dá" pode-se assumir variadas e gradativas formas, desde os machos e boyzinhos musculosos com aparência tipicamente masculina, passando pelas bichas desmunhecadas, pelas travestis e chegando até as mulheres. Aliás, ironicamente, algumas travestis chegam a considerar que o ponto mais alto dessa escala de feminilidade do gênero “não-homem” são as próprias travestis, e não as mulheres. Segundo as próprias travestis, elas encarnariam supostamente (ou pelo menos tentam encarnar) a versão mais completa, perfeita e bem acabada da feminilidade.
O livro tem, é certo, algumas falhas argumentativas, certos deslizes lógicos e alguns buracos. Uma leitura “pente fino” provavelmente seria capaz de desmontar muitos de seus encadeamentos (oportunamente pretendo fazer algumas observações críticas). De qualquer maneira, a hipótese de Kulick é polêmica em vários planos. Seu livro certamente tem munição para desagradar várias correntes dentro e fora da antropologia, à direita e à esquerda. Mas Kulick o sustenta com base em uma etnografia muito cuidadosa e rica. Cabe agora aos estudiosos e interessados tentarem (e tratarem de) refutá-lo. Não a partir de argumentos de autoridade ou de acusações de cunho ideológico e político. Mas a partir de investigações ainda melhores a respeito daquilo que vivem e pensam os brasileiros em termos da sua própria sexualidade. O desafio está lançado.

4 comentários:

Anônimo disse...

oi, se vc souber de alguem que gostaria de escrever um livro sobre trans, eu sou um ex meu email é mvisaak@yahoo.it

morei na Italia,espnha, e conheço muitas pessoas ,mas eu quero mesmo escrever um livro e ganhar dinheiro...
Obrigado se houver um enteresse entre em contato...

Joara Awagana disse...

Não conheço o trabalho do autor do livro, e confesso que por enquanto nem o seu, mas ganhei de presente um de seus livros, o Economia Selvagem e logo começarei a lê-lo. Fiquei bastante curiosa com a obra que você traduziu, realmente gostei de seu texto, não posso analisar o mérito porque não conheço a obra de Kulick, mas gostei de sua clareza, mesmo não sendo eu da área, da tônica do seu texto. Comm certeza vc já ouviu muito isso antes,mas parabéns. Aparentemente vc ganhou uma admiradora.

Gisele disse...

Olá!
Gostaria de saber onde posso comprar esse livro. Estou com dificuldades de encontrá-lo na minha cidade e na internet e ele faz parte da bibliografia que terei que ler para a prova do mestrado.
Se puder me ajudar meu e-mail é giselefilippo@gmail.com

obrigada =)

Anônimo disse...

Aprendi muito